A cada dia, os materiais multimídia incorporam novas formas de ser e existir, diferentes mídias, diferentes tecnologias. Entretanto, quando pensamos na acessibilidade, na apresentação inclusiva de tais materiais, a área ainda engatinha.

Como coloca Osmar Antônio Hoepers Júnior, em seu trabalho intitulado “Análise da Produção Audiovisual Publicitária do Ponto de Vista da Inclusão do Público Surdo”:

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Como podemos pensar que a mensagem de um vídeo publicitário está clara e acessível se cerca de 5% da população não possui acesso a este conteúdo, por ter deficiência auditiva?

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Osmar Antônio

A pesquisa foi feita com surdos bilíngues, ou seja, que utilizam tanto sua língua primária, Libras, quanto o Português escrito. Todavia, o estudo deixa claro que apenas inserir uma legenda no material não é nem de longe o suficiente para tornar um material inclusivo, já que uma grande parcela do público surdo tem dificuldades para ler ou escrever em português.

Na pesquisa, o autor mostra a importância de usar a língua de sinais e aponta algumas características elencadas pela ABNT que podem ajudar no processo de tornar tais materiais mais acessíveis à esse público:

  1. a) a altura da janela deve ser no mínimo metade da altura da tela do televisor;
  2. b) a largura da janela deve ocupar no mínimo a quarta parte da largura da tela do televisor;
  3. c) sempre que possível, o recorte deve estar localizado de modo a não ser encoberto pela tarja preta da legenda oculta;
  4. d) quando houver necessidade de deslocamento do recorte na tela do televisor, deve haver continuidade na imagem da janela.
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Fonte: Núcleo de Estudos sobre Deficiência – NED da UFSC

No comercial da Caixa Econômica Federal, utilizado na pesquisa, foi observado que apesar de conter tanto legenda como sinalização em Libras, ainda não está dentro dos padrões estabelecidos pela ABNT, o que poderia garantir um melhor entendimento do conteúdo pelo público surdo.

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Comercial da Caixa Econômica Federal

Seguindo as especificações da ABNT e as recomendações encontradas no trabalho de Hoepers Júnior, alguns estudantes assumiram o desafio de produzir materiais multimídia criativos e acessíveis e nos mostram como isso foi feito.

Em material produzido para o Dia do Estudante foram combinadas as duas línguas na produção de um vídeo inclusivo e acessível.

No campo da publicidade, os estudantes mostraram que mesmo seguindo as normas para acessibilidade, é possível ser engraçado e criativo. Assim, desenvolveram um comercial digno das melhores agências.

O vídeo educacional “Bananas”, é mais um bom exemplo de conteúdo instrutivo, divertido e bilíngue.

A equipe nos contou que para desenvolver o trabalho o grupo foi dividido em sub equipes e cada uma ficou responsável por uma parte do processo. O tema foi definido de acordo com a persona criada. Depois, foi feita uma entrevista com uma nutricionista para aprofundar o conteúdo e o trabalho foi desenvolvido tendo como foco o público surdo.

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Primeiro, conhecemos a nossa persona, e sobre como seria abordado o tema. Em seguida, realizamos brainstormings para criar um roteiro. Por fim pensamos em estratégias que fossem direcionadas exclusivamente aos surdos, no caso gravando um vídeo informativo totalmente em Libras com locução.

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Ana Paula Gomes

Além da preocupação com a acessibilidade, eles contam que tiveram dificuldades no filtro do conteúdo, para identificar o que realmente era necessário e importante.

Para resolver esses dilemas contaram com a participação de um surdo, que era também a inspiração para a persona criada.

A participação do usuário, ao longo de todo o processo de design, é sempre importante, e isso geralmente ocorre com testes de uso ou pesquisas de opinião, mas no caso de desenvolvimento de materiais para surdos é ainda mais recomendável. Os surdos querem que a cultura surda seja considerada e nada melhor do que contar com eles na equipe de projeto.

Existe um lema das pessoas com deficiência, também adotado pelos surdos, que mostra bem esse sentimento:

Nada sobre nós, sem nós!

Essa frase marcante, criada por Michael Masutha e William Rowland (1993), revela como os surdos sentem falta de materiais que considerem realmente suas necessidades, seus desejos e seu modo visual de se orientar no mundo.

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